O sol do deserto começava a ceder ao frescor do entardecer enquanto Layla ajudava seu pai a carregar os equipamentos para mais uma longa jornada ao mar. O brilho das pérolas sustentava as tecelãs da vila, que transformavam o algodão em delicados tecidos, trocados por alimentos e outros bens. Layla, com seus olhos profundos e cabelos negros como a noite, sempre sonhara com o mar, mas as mulheres não eram bem-vindas nas embarcações.
Naquele dia, porém, o destino decidiu que seria diferente.
“Hoje você vem comigo, Layla”, disse o pai, hesitante. Uma mistura de orgulho e preocupação o preenchia. Eles viajaram por horas até o litoral, onde o cheiro salgado do mar preenchia o ar. A pesca de pérolas era uma arte, e o pai de Layla era reconhecido como um dos mais habilidosos mergulhadores. “Observe e aprenda, filha. Um bom pescador sabe quando seguir o instinto e quando respeitar o mar.”
Ao cair da noite, enquanto os outros pescadores descansavam, o pai de Layla viu algo extraordinário: uma concha gigante reluzindo nas profundezas, visível mesmo na escuridão. Ele sabia que aquela poderia conter a maior pérola já encontrada, algo que mudaria suas vidas para sempre. Contra todos os conselhos de prudência, mergulhou nas águas.
Layla olhava a cena com apreensão. Minutos se passaram, e ele não retornava. Sem hesitar, ela prendeu a respiração e mergulhou atrás dele. As águas escuras eram traiçoeiras, e o brilho da concha parecia hipnotizante. Ela encontrou o pai preso em um emaranhado de algas, lutando para se libertar. Com todas as suas forças, conseguiu ajudá-lo a emergir. Mas, ao fazê-lo, Layla ficou presa. O ar acabava, e a escuridão a envolveu.
O pai de Layla voltou ao barco, desesperado. Ainda assim, sua ganância o venceu. Ele pegou a concha que quase lhe tirara a vida e decidiu levá-la consigo. Quando finalmente chegou à vila, com o coração pesado de culpa e tristeza, guardou a concha, temendo abri-la. Mas a obsessão foi mais forte. Ao girar a lâmina para forçá-la, uma luz dourada explodiu do interior, iluminando toda a casa.
Diante dele, Layla surgiu, transformada. Vestia um manto perolado que refletia o brilho do mar, e suas asas eram marrons como se o oceano as moldasse. Sua voz era suave, mas carregava uma força ancestral. “Pai, sua ganância quase nos destruiu. O mar exige respeito, não exploração. Minha vida foi entregue para salvá-lo, e agora renasço como guardiã das águas do Bahrein.”
A concha se fechou novamente, desaparecendo em um feixe de luz, e o pai de Layla caiu de joelhos, consumido pela tristeza e arrependimento. Ele abandonou a pesca e dedicou sua vida a ensinar aos jovens da vila a sabedoria que aprendera.
Desde então, Layla é conhecida como o Arcanjo do Bahrein, protetora dos mares e do equilíbrio entre os desejos humanos e a generosidade da natureza. As águas do Bahrein brilham sob o luar, e os pescadores juram que, em noites calmas, podem ouvir sua voz ecoando entre as ondas.
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