Os céus estavam tingidos de cinza, como se o próprio mundo houvesse esquecido a cor da paz. As trincheiras da Frente Ocidental, escavadas no solo ensopado da Bélgica, estavam repletas de homens mergulhados na lama, no medo e na desesperança. Explosões rasgavam o ar com um estrondo ensurdecedor, enquanto a chuva incessante misturava sangue e água em poças que refletiam o horror nos olhos dos soldados. O cheiro de pólvora, suor e morte pairava pesado no ar, sufocando até os últimos resquícios de humanidade.
Os gritos de dor e o som de botas correndo na terra molhada competiam com o rugido dos canhões. Em meio àquele caos, um jovem soldado belga chamado Henri apertava em suas mãos um pequeno amuleto que sua mãe lhe dera. Seus olhos, vermelhos de lágrimas e cansaço, se perdiam no horizonte onde a terra parecia vomitar fogo. Ele sussurrava uma prece, não pela vitória, mas por um fim àquela carnificina.
E foi então que ele viu algo impossível.
No meio do campo de batalha, entre as crateras abertas pelas bombas, uma figura surgiu, alta e imponente, envolta por uma luz dourada que parecia repelir a escuridão ao seu redor. Suas asas negras, feitas de uma plumagem que mudava de cor sob o reflexo da destruição, se abriram como um escudo protetor. O olhar da figura era firme, mas carregava uma tristeza infinita, como se ele sentisse o peso de cada vida perdida.
Henri piscou, pensando que seus olhos o enganavam. Mas outros soldados também haviam parado, atordoados pela visão. A figura caminhou lentamente pelo campo, e onde seus pés tocavam, a terra parecia ganhar fôlego novamente. As chamas ao redor cessavam, e os sons de explosões se tornavam distantes, como um eco de outro tempo.
O Arcanjo da Bélgica, embora invisível para a maioria, estava presente em cada batalha travada naquele território. Em sua voz grave e serena, ele se aproximou de Henri, que tremia entre o medo e a reverência. “Você não está sozinho,” disse o Arcanjo. “Lembre-se de que a união é a força que transcende a guerra. Esta terra, ensanguentada e fragmentada, não será destruída se aqueles que a amam permanecerem juntos.”
Enquanto falava, o Arcanjo se movia entre os combatentes, erguendo soldados caídos e tocando suas mãos para aliviar a dor. Para os líderes que observavam de longe, ele era apenas uma sombra, um vulto nas trincheiras. Mas, para aqueles que lutavam, ele era um guia, uma presença que trazia esperança onde antes só havia desespero.
Os dias continuaram a ser sombrios, mas a lembrança do Arcanjo permaneceu com Henri e os outros que sobreviveram. Após a guerra, quando as ruínas da Bélgica começaram a ser reconstruídas, a figura misteriosa foi lembrada em histórias contadas de pai para filho. Muitos acreditavam que ele era um mito, mas Henri sabia que era real. Ele havia visto o Guardião com seus próprios olhos.
O Arcanjo não era apenas um protetor em tempos de guerra. Ele era a personificação do espírito belga: resiliente, forte e sempre em busca da unidade. Sua missão não era apenas proteger vidas, mas também lembrar à Bélgica que sua verdadeira força vinha da união de seu povo, mesmo nos momentos mais difíceis.
E assim, mesmo enquanto as feridas da guerra lentamente se fechavam, o Arcanjo continuava a caminhar entre os belgas, invisível aos olhos, mas presente em cada ato de solidariedade e coragem.
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Nas vielas estreitas de Bruxelas, onde a arquitetura gótica se ergue imponente e a história se entrelaça com o presente, habitava um arcanjo singular. Era um ser de contrastes: a delicadeza de um anjo e a força de um guerreiro, a espiritualidade e a rebeldia.
Chamavam-no de Gabriel, em homenagem ao mensageiro de Deus. Gabriel possuía uma beleza frágil, com cabelos loiros que caíam sobre os ombros como uma cortina de ouro. Seus olhos, da cor do céu nublado, refletiam a melancolia e a sabedoria de milênios. Seu corpo, magro e esguio, era marcado por uma tatuagem em forma de cicatriz que se estendia do peito até a barriga, como se fosse a marca de uma batalha antiga.
Gabriel era o guardião das catedrais góticas, templos sagrados que pontilhavam a paisagem belga. Ele as protegia das forças das trevas, mas também das ameaças do mundo moderno. A cada dia, ele sobrevoava as cidades, vigiando os monumentos que testemunharam a história da humanidade.
Seus olhos, no entanto, não viam apenas a beleza da arquitetura. Ele testemunhava a destruição do patrimônio histórico, a intolerância religiosa e a desigualdade social. A dor crescia dentro dele, mas ele a controlava com a força da fé e a sabedoria dos antigos.
A postura de Gabriel era a de um pensador. Seu olhar, perdido nas alturas das catedrais, transmitia uma sensação de nostalgia e melancolia. A tatuagem em seu peito era um lembrete constante de sua luta e de sua conexão com o mundo humano.