Eu nunca pedi pra ser arcanjo. Não mesmo. Juro por tudo o que é mais sagrado no Mosteiro de Ostrog (mesmo que fique em Montenegro, né, mas vale pela vibe). Se fosse por mim, minha vida seria bem mais simples. Eu estaria em Sarajevo agora, reclamando do frio de dezembro enquanto tomava um café forte numa kafana qualquer, talvez ouvindo algum sevdalinka melancólico no fundo. Mas não, aqui estou eu, contando como fui escolhido pra essa “honra” celestial.
Tudo começou com a vó. Claro que foi com ela. Minha vó, uma mulher teimosa que parece ter feito pacto com o tempo, vive dizendo que “nós temos um dom na família”. Eu achava que ela tava falando das tortas de nozes dela, que são incríveis, aliás. Mas não. Um dia, enquanto eu cortava lenha na casa dela em Konjic, ela saiu com um “O destino te chamou. Você é o próximo”.
“Próximo o quê, vó?” perguntei, suando e com uma lasca de madeira no dedo. “O próximo arcanjo da Bósnia e Herzegovina”, ela disse como se tivesse me contado que o jantar tava pronto.
Achei que ela tava de brincadeira. Quem não acharia? Mas não passou nem uma semana e lá estava eu, sendo levado por dois homens muito sérios (e assustadoramente silenciosos) para o Monte Bjelašnica. Aparentemente, o ritual tem que ser feito lá. Me disseram que é por causa da proximidade com o céu. Eu acho que é só porque é difícil demais chegar lá e pouca gente sabe o que acontece.
Chegando lá, me enfiaram numa espécie de gruta com velas e insenso (que me fez espirrar tanto que achei que iam me desclassificar por alergia). Um velho com uma barba branca que parecia ter saído direto de um mosaico medieval veio com uma espécie de cajado. Começou a murmurar coisas em um idioma que eu não entendi – talvez bósnio arcaico ou, sei lá, língua de anjos – e desenhou algo na minha testa com o que parecia ser lama misturada com ouro.
Foi aí que as coisas ficaram estranhas. Uma luz – é, luz – saiu do chão. Pensei: “Pronto, é agora que eu morro e minha mãe vai ficar sem entender nada.” Mas, em vez disso, senti uma energia estranha, como se o vento estivesse soprando de dentro de mim. De repente, o velho disse: “Está feito. Você agora é o arcanjo da Bósnia e Herzegovina.”
Eu? Arcanjo? Olha, eu mal consigo organizar meu quarto, quem dirá proteger um país inteiro! Perguntei o que exatamente eu tinha que fazer. Ele respondeu que minha missão era “preservar o equilíbrio espiritual da nação”. Ah, claro. Fácil. Tipo lembrar de pagar as contas, só que com menos boletos e mais “energia divina”.
Agora, meus dias são uma mistura de tarefas espirituais e reclamações constantes. Preciso aparecer em lugares históricos como o Mostar, dar um jeito nas “vibrações negativas” em torno da Ponte Velha e garantir que as pessoas não fiquem se odiando tanto por causa de coisas que aconteceram há décadas. Também tem aquela questão do Rio Neretva, que dizem ser um canal de energia vital. Sabe o que é “canal de energia vital”? Significa que eu tenho que mergulhar nele em pleno inverno porque “refresca o espírito”.
Eu não pedi isso. De verdade. Mas, no fundo, sei que é importante. Apesar de reclamar – muito – eu sinto um tipo de orgulho estranho. Não é todo dia que você vira um arcanjo, especialmente num lugar tão cheio de história, dor e beleza como a Bósnia. Mas se algum dia você me ver resmungando enquanto carrego uma espécie de aura brilhante por aí, faça o favor de me oferecer um café. Afinal, até arcanjos precisam de cafeína.
Ah, quase esqueci. Meu nome? Meu nome é Mirza. Agora, Mirza, o Arcanjo da Bósnia e Herzegovina. Soa importante, né? Mas pode me chamar só de Mirza. Fica menos formal.