As águas tranquilas do rio Brunei refletiam as luzes douradas da Mesquita Omar Ali Saifuddien, mas sua beleza era uma ironia amarga para mim. Sou Aminah, uma guardiã invisível, um arcanjo cujo propósito é observar e proteger as almas que habitam este reino. Minha forma está marcada por tatuagens tribais que carregam os segredos de eras passadas. Minhas asas negras não cortam o céu, mas carregam histórias de luta e resiliência, especialmente das mulheres de Brunei.
Hoje, enquanto pairo sobre a cidade, sinto o peso de séculos ecoando nos ventos que sopram das aldeias até a capital. Aqui, as mulheres caminham com graça, envoltas em véus e tradições, mas em seus olhos vejo algo mais profundo — uma força silenciosa. Elas são mães, filhas, irmãs, empresárias, líderes e sonhadoras, navegando por um mundo onde suas vozes, muitas vezes, são abafadas por um manto de expectativas.
Não posso intervir diretamente, mas acompanho seus passos. Há uma jovem chamada Nura que se destaca em meu olhar. Ela tem 23 anos, o mesmo número de pétalas gravadas na tatuagem em meu braço esquerdo, simbolizando a luta por cada ano de sua vida. Nura é filha de um pescador e cresceu nas casas flutuantes de Kampong Ayer. Seu sorriso esconde os sonhos que carrega — sonhos maiores que a água que reflete sua casa, maiores que o teto dourado da mesquita que ela vê ao longe.
Ela quer estudar no exterior, em um lugar onde suas ideias possam florescer sem limites. Mas esta ambição a coloca em um dilema, um que conheço bem. Há tradições, expectativas de sua família e o peso de um amor que ela teme perder se seguir adiante.
Minha presença não pode ser notada, mas hoje, decido deixá-la um sinal. Na beira do rio, onde ela senta para pensar, coloco uma pequena flor branca entre as pedras. Ela não é especial por si só, mas sua raridade nesta região fará com que Nura a veja. Essa flor é um lembrete de que os caminhos mais difíceis costumam florescer em terrenos adversos.
Horas depois, a vejo encontrar a flor. Ela a pega com cuidado, como se temesse que o vento pudesse levá-la. Sinto seu coração vacilar entre a dúvida e a determinação. Ela sussurra algo para si mesma, uma prece ou talvez uma promessa. Não consigo ouvir, mas sei que ela sente meu toque invisível.
O dilema de Nura ecoa o de tantas outras mulheres deste lugar. Elas desejam romper barreiras, mas fazem isso com respeito às raízes que as sustentam. Não é uma luta contra a tradição, mas sim uma dança delicada entre o passado e o futuro.
Enquanto observo, meu monólogo interno é constante. Por que, penso, mesmo no brilho da modernidade, as vozes das mulheres ainda precisam encontrar brechas para serem ouvidas? Minha missão é protegê-las, mas às vezes, a dúvida se insinua. Sou suficiente? Meus sinais, tão sutis, realmente fazem diferença?
E então, vejo Nura erguer a cabeça e caminhar de volta para casa. Não sei o que ela decidiu, mas há uma nova luz em seu olhar. É assim que sei que fiz a coisa certa.
Naquela noite, enquanto o céu se escurece e as luzes da mesquita brilham como estrelas na terra, penso em todas as mulheres de Brunei. Elas não precisam de asas para voar, mas sim de pequenos sinais para lembrar que já possuem a força necessária. E enquanto uma delas acreditar nisso, saberei que minha missão está sendo cumprida.
Sou Aminah, uma guardiã invisível, uma testemunha da força silenciosa que molda este mundo. Minha tarefa não é mudar as pessoas, mas ajudá-las a ver a força que já existe dentro de si. Assim, sigo, nas sombras e na luz, ouvindo as vozes do silêncio que se tornam gritos de coragem.