BURQUINA FASO

Yacouba, resiliência e comunidade

Eu me lembro como se fosse ontem. Eu era apenas uma criança, correndo pelas ruas de Ouagadougou, brincando com os outros meninos e meninas do bairro, sem saber que, em algum lugar perto, a história do meu país estava prestes a mudar para sempre. E, no centro de tudo isso, estava ele, um jovem da nossa comunidade, que se tornaria o Arcanjo de Burkina Faso.

Lá, nas montanhas de Tenkodogo, vivia um rapaz chamado Yacouba. Ele não parecia ser diferente de ninguém, sabe? Era meio na dele, calado, mas com um coração generoso, e uma coragem que se destacava apenas para quem prestava atenção. Ele cresceu no meio das dificuldades de nossa terra – uma terra seca, mas rica em cultura e em lendas. A cada festa de fim de ano, no festival da música de Ouagadougou, onde as batidas do balafon e as danças tradicionais sacudiam a terra, Yacouba se destacava entre nós, mas sempre de forma simples, humilde.

Até que algo aconteceu. Uma noite, quando o vento quente do Sahel começava a tocar as árvores de Baobá, Yacouba teve uma visão. Uma luz intensa desceu do céu, iluminando o campo e banhando-o com uma energia indescritível. Naquela hora, ele sentiu algo que jamais poderia ter explicado – uma conexão profunda com os ancestrais, com a terra, com os deuses que nos protegem. Algo dentro dele despertou, e, naquele momento, ele ganhou asas.

Sim, asas. Como um dos grandes espíritos que, segundo dizem, habita a nossa terra, Yacouba se transformou. As ruas de Ouagadougou ficaram vazias, e, ao olhar para o céu, todos viram a figura imponente de Yacouba, agora um verdadeiro arcanjo. Ele havia se tornado o protetor de Burkina Faso, e seu voo sobre os campos de arroz e as aldeias de coton, sua presença nos mercados de Bobo-Dioulasso e nas montanhas de Fada N’Gourma, era como um sinal de que algo grandioso estava por vir.

Yacouba, o Arcanjo, usou seus poderes para curar a terra e as pessoas. Como? Bem, é claro, ele não veio só com asas douradas. Ele trouxe com ele uma missão, a missão de restaurar o que estava perdido: a confiança do povo, a força da nossa economia e a unidade entre as diversas etnias que formam o nosso país. Lembro-me de como ele ajudou a nossa gente durante as épocas de seca, guiando os agricultores até os locais onde as chuvas poderiam surgir. Com seu toque, ele devolvia o verde aos campos e aos corações de cada um de nós.

Mas o Arcanjo não fazia só milagres, não. Ele estava sempre entre nós, ouvindo nossas histórias e nos inspirando a trabalhar juntos, a sermos mais fortes. Toda vez que passava por uma aldeia, Yacouba não deixava de parar e conversar com as crianças, contar sobre os antigos mitos de nossos avós, sobre a luta de Thomas Sankara, e sobre como nós, filhos e filhas de Burkina Faso, deveríamos sempre manter nossa cultura viva. Ele nos lembrou de nossos tam-tams, de nossas danças, do fogo da luta pela liberdade.

Uma vez, ele nos levou até o Lago de Tengrela, e ali, no brilho das águas, Yacouba nos contou sobre os ancestrais que usaram suas energias para lutar contra as adversidades da vida. Eles, como ele, eram guerreiros da luz, sempre prontos para enfrentar a escuridão.

Mas Yacouba, o Arcanjo, também enfrentava desafios. O país tem muitos problemas – e ele sabia que ninguém, nem mesmo ele, poderia resolvê-los sozinho. Ele lutou contra a pobreza, a falta de educação, e tentou, com tudo o que tinha, aproximar nossos jovens da sabedoria dos mais velhos. Ele trabalhava, e trabalha até hoje, para que as gerações futuras, como nós, possamos ter uma vida melhor. Quando alguém se perde em nossas ruas, ele aparece para guiar. Quando a fome aperta, ele encontra uma forma de ajudar.

Eu, que o vi crescer, que o vi se transformar de um jovem comum em um herói, sou grato. Grato por sua coragem, por sua bondade, e pela maneira como ele nos ensina todos os dias. O Arcanjo de Burkina Faso não é só um ser celestial, é uma parte de cada um de nós – da nossa história, das nossas lutas, da nossa cultura vibrante e das nossas raízes profundas.

E assim, em meio às danças de tambor e nas noites iluminadas pela lua africana, continuamos a viver o sonho do Arcanjo. Ele não nos deixou, ele sempre estará conosco, nas batidas do nosso coração, nas histórias que contamos e nas sementes que plantamos para o futuro.

Porque, como ele diz, “nós somos a luz que ilumina o caminho de nossa pátria”.

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