COSTA DO MARFIM

Amara, a Anja dos Sons Eternos

Na vibrante cidade de Abidjan, Costa do Marfim, vivia Amara, uma jovem cujo nome significava “graça eterna”. Nascida no bairro de Treichville, um lugar conhecido por sua música coupé-décalé e mercados cheios de vida, Amara cresceu entre as batidas ritmadas dos tambores djembe e as histórias dos griots, os contadores de histórias que mantinham viva a memória de seu povo.

Sua família era profundamente ligada às tradições. Sua mãe, Adjoua, era uma dançarina talentosa que liderava rituais em festas como o Festival des Masques em Man, uma celebração dos espíritos da floresta e da ancestralidade. Seu pai, Kofi, era pescador e artesão, conhecido por suas esculturas intricadas inspiradas nos espíritos protetores blolo bian e blolo bla.

Amara cresceu ouvindo as histórias dos deuses Akan, as lendas da floresta sagrada e os mitos dos espíritos protetores que guiavam os homens e mulheres de sua vila. Desde pequena, ela mostrava uma conexão especial com essas histórias e com a música que as acompanhava. Aos 10 anos, começou a aprender a tocar o balafon, um xilofone tradicional que os anciãos diziam ser a “voz da alma”. Ela não apenas tocava, mas parecia trazer algo mágico em cada melodia.

Mas a infância de Amara não foi apenas de sonhos e tradição. Com o passar dos anos, a modernidade trouxe desafios à comunidade. Jovens cada vez mais se afastavam das práticas ancestrais, atraídos pela vida urbana e pela tecnologia. Amara, porém, nunca deixou de sentir que havia algo maior em sua ligação com a cultura de seus pais.

Aos 18 anos, enquanto caminhava pelos arredores da floresta de Banco, uma reserva natural perto de Abidjan, Amara teve uma experiência inexplicável. Ela estava tocando seu balafon em um momento de introspecção quando um redemoinho de folhas se formou ao seu redor. Uma voz suave, como o vento sussurrando segredos, lhe disse:

“Você foi escolhida para ser o elo entre mundos. A música é sua arma, e sua alma é sua força.”

Amara desmaiou e acordou horas depois, sentindo-se diferente. Sua mãe, ao vê-la, percebeu algo especial em seu olhar: um brilho que parecia conter o sol e a lua.

A jovem foi levada pelos anciãos da vila para a cidade de Yamoussoukro, onde fica a Basílica de Nossa Senhora da Paz, um lugar que mistura a grandiosidade moderna com a espiritualidade. Lá, em uma noite estrelada, ela participou de uma cerimônia liderada pelos mais antigos guardiões da cultura Akan. Durante o ritual, ela tocou seu balafon, e a música parecia ressoar não apenas na sala, mas nas almas dos presentes.

Nesse momento, Amara foi levada em espírito para o reino dos blolo – os mundos espirituais. Os deuses Akan apareceram diante dela e a coroaram como uma guardiã da harmonia entre a tradição e o progresso. Quando voltou ao mundo físico, ela havia se transformado: suas asas de luz dourada refletiam o calor do sol africano, e seu balafon agora emitia notas que podiam curar corações e inspirar até os mais desesperançosos.

Amara foi escolhida porque sua alma carregava o equilíbrio que o mundo precisava. Ela entendia o valor das raízes, mas também reconhecia a necessidade de adaptação e crescimento. Sua música não era apenas som, mas um chamado para que as pessoas lembrassem de quem eram, mesmo enquanto caminhavam em direção ao futuro.

Hoje, Amara é conhecida como a Anja dos Sons Eternos. Ela aparece nos sonhos daqueles que estão perdidos, sua melodia ecoando como um lembrete de que tradição e modernidade não precisam ser inimigas. Em Abidjan, dizem que, quando o vento sopra suavemente, é Amara tocando seu balafon, abençoando sua terra e seu povo com a força de suas notas imortais.

Sua história é contada pelos griots, inspirando jovens a honrar sua herança enquanto constroem um futuro digno da grandiosidade de sua história.

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