Era uma tarde de primavera em El Born, Barcelona, e o sol se escapulia pelas frestas das persianas de madeira do meu pequeno apartamento. Eu sou Sara, nascida e criada nesta cidade mágica, mas com um coração que dança ao ritmo do flamenco. Meu pai, catalão até o último fio de cabelo, me ensinou a amar a precisão das castanholas, enquanto minha mãe, andaluza, me mostrava que a alma pode ser traduzida em um “olé” bem dado.
Minha vida era simples. Eu trabalhava em uma livraria que ficava ao lado do mercado de Santa Caterina, com aquele teto ondulado e colorido que parece saído de um sonho de Gaudí. Passava os dias organizando romances e discutindo com turistas que insistiam que “Don Quijote” era uma leitura rápida. À noite, me juntava às amigas em bares de tapas, competindo para ver quem conseguia comer mais patatas bravas antes de queimar a língua.
Mas algo sempre parecia faltar. Não era exatamente um vazio, mas uma inquietação, como um vento de levante que sopra do sul e bagunça a mente. Sentia que algo grande estava por vir, mas nunca imaginei que esse “algo” envolveria asas, arcanjos e uma missão divina.
Tudo começou numa noite estrelada. Estava voltando para casa, desviando dos turistas que andam a passos de tartaruga em El Born. Passei pela igreja de Santa Maria del Mar, quando ouvi uma voz. Não era exatamente um som, mas uma presença, um calor que me envolvia e dizia:
“SAra de Barcelona, filha do Sol Andaluz e do Mar Catalão, foste escolhida como Arcanja da Espanha.”
Minha reação? Gargalhei. Gargalhei tanto que assustei um grupo de pombos que dormia nos degraus da igreja. Pensei que alguém tinha colocado algo estranho na sangria que tomei mais cedo. Mas a voz voltou, insistente, até que uma luz dourada brilhou no alto. A luz era tão forte que cobriu o barulho das scooters e das conversas nas praças.
“Arcanja? Eu? Não pode ser. Sou péssima com responsabilidades! Outro dia queimei uma tortilla de patatas porque me distrai com um reality show!” Mas a voz não aceitava desculpas. “Seja humilde, mas confia. O destino de uma nação repousa em ti.”
Aceitar meu papel como Arcanja da Espanha foi uma tarefa tão complicada quanto entender as entrelinhas de um poema de Lorca. Primeiro, precisei passar por um treinamento onde anjos me colocaram em situações desafiadoras: tive que aprender a escutar as preces de um país inteiro, captando não apenas as palavras, mas as emoções por trás delas. Depois, precisei atravessar a Espanha de norte a sul – não fisicamente, mas em espírito – para entender a alma de cada região, desde o fervor das festas de San Fermín até a melancolia das saetas na Semana Santa de Sevilha. Por fim, enfrentei a prova mais difícil: reconciliar as vozes de quem parecia não se entender, lembrando a todos que a diversidade de idiomas, culturas e tradições não é fraqueza, mas a maior força da nação.
Tambem pasei os testes de caráter. Precisei enfrentar meus medos, como o de voar – ironicamente, algo crucial para ganhar asas. Também tive que mediar uma discussão entre São Tiago e a Virgem de Guadalupe sobre quem tinha a maior devoção popular. Foi tenso!
Por fim, na noite em que supostamente ganharia minhas asas, tive um último desafio: aceitar que meu papel não era sobre fingir perfeição, mas sobre ser eu mesma – uma barcelonesa teimosa, apaixonada e cheia de humor.
Quando minhas asas finalmente apareceram, foi em um espetáculo digno de um filme de Almodóvar. Grandiosas e elegantes brilhavam como o reflexo do sol em tons da nossa terra quente, e o azul do nosso infinito Mediterrâneo. Detalhes que pareciam uma homenagem à arte que une o país em suas diferenças. Todos os anjos aplaudiram, mas eu só conseguia pensar: “Será que isso combina com meu vestido de flamenco?”
Agora, falando sério, sigo como Arcanja da Espanha. Minhas missões? Ajudar a curar as feridas invisíveis de um país que, mesmo tão vibrante, enfrenta desafios profundos. Trabalho para proteger aqueles que lutam por sua dignidade em meio à crise de moradia – porque, nos becos de El Born ou nas ruas de Madrid, ninguém deveria dormir ao relento. Busco inspiração nos ventos de mudança para apoiar a transição ecológica, ajudando as comunidades a se adaptarem a uma realidade em que o clima desafia o campo, a costa e até a alma.
Outra missão? Fazer com que as gerações se ouçam. Espanha é terra de histórias antigas e sonhos modernos, mas às vezes parece haver um abismo entre a sabedoria dos mais velhos e a ousadia dos jovens. Meu papel é ser ponte entre esses mundos, lembrando que tradição e inovação podem caminhar lado a lado.
E claro, luto para fortalecer a convivência em um país onde as diferenças de idioma, cultura e visão política são tanto uma riqueza quanto uma fonte de tensão. Porque, no final, somos todos parte de algo maior – como os pedaços de um mosaico que só fazem sentido juntos.