A tarde no deserto parecia como qualquer outra. Eu estava com meu pai no mercado de Sana’a, ajudando-o a vender tâmaras e café, como de costume. A brisa quente passava pelas ruas estreitas, trazendo o cheiro de especiarias e poeira. O som das conversas animadas, os gritos dos vendedores e o burburinho dos camelos nas praças eram parte do ritmo do nosso dia a dia. Mas naquela tarde, algo no ar me dizia que tudo estava prestes a mudar.
Eu tinha 19 anos, e, como qualquer jovem do Iémen, tinha a sensação de que a vida estava ali, à minha espera. Mas, como muitos outros, sentia que faltava algo. Eu não entendia ainda qual seria o meu papel no grande esquema das coisas. Eu via os velhos contando histórias de heróis, de guerrilheiros que lutaram pela nossa terra, de reis que defendiam as montanhas e os campos. Mas eu… eu não sabia qual seria minha história.
Então, aconteceu. Uma tempestade.
O céu, que antes estava claro, se fechou rapidamente, e uma nuvem espessa de poeira começou a formar no horizonte. O vento levantou com uma força que parecia querer arrancar tudo do lugar. As pessoas começaram a correr, gritaram por abrigo. Mas algo em mim fez com que eu ficasse ali, parado, como se algo estivesse me chamando. “Vai embora, Hadi!” meu pai gritou, puxando meu braço. Mas eu não conseguia me mover. Eu olhava para o horizonte e sentia algo profundo dentro de mim, algo como um aviso. O Iémen, a terra que eu amava, estava me pedindo alguma coisa. Estava me chamando.
A tempestade não era apenas uma força da natureza, era algo mais. Era como se o próprio espírito do deserto tivesse acordado, e ele estava furioso. As dunas se erguem e se misturam no ar, formando uma parede de areia que engolia tudo. As ruas de Sana’a ficaram desertas rapidamente, e os edifícios ao redor começaram a desaparecer sob uma cortina de poeira densa. O som do vento foi se tornando um rugido, um grito de fúria que não conseguia ser contido.
Foi quando vi o que parecia ser uma figura no meio da tempestade. Ela se movia com a força do vento, mas não se deixava ser arrastada. Uma presença sólida, como uma sombra, mas ao mesmo tempo iluminada pela luz que vinha do interior da tempestade. Eu a vi com clareza, mesmo sob a imensa nuvem de areia. Eu sabia que algo estava acontecendo. A figura se aproximou de mim, e eu pude sentir sua energia, uma sensação quente, como se algo fosse se acender dentro de mim.
De repente, a areia pareceu me envolver, e um calor intenso subiu pela minha espinha. Fechei os olhos, e, por um momento, eu estava dentro de uma visão, ou talvez fosse um sonho… ou uma revelação. As montanhas do Iémen surgiram diante de mim, mais imponentes do que eu jamais as tinha visto, e uma voz, profunda e ressoante, falou diretamente na minha mente.
“Você é o escolhido. O guardião de nossa terra. O que resta do Iémen precisa ser salvo, Hadi. A tempestade é mais do que uma prova da natureza. Ela é um reflexo do que está acontecendo dentro de nós. O país, nossa gente, nossos costumes… tudo está sendo levado pela areia do esquecimento. Você precisa ser mais do que o jovem do mercado. Você precisa ser o que nossa terra precisa agora: força, luz e proteção.”
A sensação de calor se intensificou, e a visão se espalhou diante de mim, mostrando o sofrimento do nosso povo, o medo nas ruas, a perda de nossa identidade diante de tantas adversidades. Eu via os rostos das pessoas, suas expressões de cansaço, suas mãos calejadas pelo trabalho árduo e pela luta constante. Sentia a dor nas montanhas, como se elas estivessem gritando por ajuda, e via o mar de Aden com suas águas, agora turvas e inquietas, refletindo o tumulto dentro de nós.
Naquele momento, entendi. O Iémen não precisava apenas de um novo líder. Ele precisava de um defensor. Alguém que estivesse disposto a lutar pelas suas raízes, alguém que fosse o reflexo da força que a nossa terra tinha, mas que também estava à beira de desaparecer.
Eu não sabia o que aquela voz significava, nem quem ou o que era a figura no meio da tempestade. Mas sabia que aquilo estava além de qualquer sorte ou coincidência. Era uma missão. A missão da minha vida.
Quando a visão se desfez e eu voltei à realidade, a tempestade estava começando a se dissipar. O vento, ainda forte, parecia me empurrar, mas agora eu não tinha medo. Eu sentia algo dentro de mim. Uma força renovada. Era como se o espírito do Iémen estivesse me guiando, como se a terra tivesse escolhido me fortalecer, me transformar.
A tempestade, que antes parecia uma ameaça, agora se tornava um símbolo. Uma metáfora para o que o país estava passando: um período de escuridão e desespero, mas com a possibilidade de renascimento. Eu sabia, naquele momento, que meu destino não era mais apenas ser o filho do comerciante. Eu tinha uma missão. Não era só ser um líder, mas ser a chama que manteria o Iémen vivo. Proteger nossas tradições. Combater as forças que tentavam apagar nossa história e cultura.
No dia seguinte, comecei a treinar, a estudar nossas tradições, as histórias dos antigos heróis. Eu me preparei como nunca antes, porque agora, mais do que nunca, eu entendia que a verdadeira força do Iémen não vinha das armas ou da força física. Ela vinha das nossas raízes, da nossa resistência, da nossa capacidade de, mesmo diante da tempestade, continuar a lutar.
Eu não era mais apenas Hadi. Eu era o guardião de um país que não iria se render. E, por mais difícil que fosse o caminho, eu estava pronto para enfrentá-lo.