Eu sou Aline, filha das ondas e do vento, criada sob o calor do sol das Ilhas Maurício. Desde pequena, minha paixão era desafiar o oceano com minha prancha de surfe, sentindo a energia pulsante das ondas, como se fossem o próprio espírito da ilha me embalando. Naquele pedaço de paraíso, onde as praias se misturam a coqueiros e o ritmo do séga ecoa em cada canto, eu sempre soube que minha vida seria extraordinária.
A Maurício não é apenas um lugar, é um conjunto de histórias e lendas. Uma das mais antigas dizia que o oceano tem suas guardiãs, mulheres escolhidas por sua coragem e conexão com a natureza. Mas eu nunca imaginei que me tornaria uma delas.
Tudo mudou no dia em que o ciclone Kalinda ameaçou nossa ilha. As ondas que antes eram minhas aliadas se tornaram monstruosas, destruindo tudo à sua frente. Eu estava na praia, ajudando os pescadores a puxar seus barcos para a segurança, quando ouvi um grito. Uma menina estava presa em um recife distante, o mar já lambendo seus pés.
Sem pensar duas vezes, agarrei minha prancha e mergulhei na fúria do oceano. Cada braçada era uma luta, cada onda uma muralha que ameaçava me engolir. Meu corpo tremia de exaustão, mas algo maior me movia. Eu sabia que precisava salvá-la.
Quando finalmente alcancei a menina e a ergui para minha prancha, senti a correnteza me puxar para baixo. Era como se o mar quisesse me testar, desafiando minha determinação. Usei todas as minhas forças para impulsioná-la de volta à segurança. Mas, no instante em que a vi sendo resgatada na areia, uma onda gigantesca me engoliu.
O que aconteceu depois é difícil de descrever. Eu não me afoguei, mas também não estava viva. Me encontrei em um lugar que não era mar, céu ou terra. Era uma dimensão feita de luz e energia. Uma voz, como o próprio som do vento sussurrando entre as palmeiras, falou comigo:
— Aline, sua coragem e altruísmo te tornaram digna. Você será uma guardiã do mundo dos vivos, uma anja para proteger os que precisam.
Quando abri os olhos, eu estava de volta à praia, mas algo em mim havia mudado. Minhas vestes eram brancas, decoradas com desenhos de ramos que pareciam vivos, pulsando com uma energia divina. Meu corpo estava coberto por tatuagens, cada uma representando uma história, uma missão que eu agora carregava.
Não sou uma anja como as das lendas antigas, cheia de doçura e submissão. Sou moderna, empoderada e livre. Uso minhas asas, que se abrem como as velas de um barco ao vento, para atravessar os céus. Minhas tatuagens são meu escudo e minha memória. Cada uma delas brilha mais forte quando ajudo alguém, como no dia em que salvei um grupo de turistas perdidos nas montanhas ou quando devolvi um pescador ao mar depois que seu barco virou.
Ainda surfo, mas agora é diferente. Quando estou na crista de uma onda, sinto que me conecto à força que me transformou. As ondas ainda são minhas aliadas, mas agora sou mais do que uma surfista; sou uma guardiã, uma anja moderna, uma filha das Ilhas Maurício que encontrou seu verdadeiro chamado.
E assim, minha história continua, dançando ao ritmo do séga, desafiando as ondas e protegendo aqueles que cruzam meu caminho. Porque, no fim, ser uma anja não é sobre ter asas, mas sobre ter coragem, amor e a vontade de fazer a diferença.