KIRIBATI

Tehani, a Arcanja do silêncio

Tehani foi uma criança criada a algo muito maior do que uma pequena ilha de Kiribati poderia conceber. Desde os primeiros meses de vida, ficou evidente que Tehani não respondia aos estímulos do mundo. Quando sua mãe cantava antigas canções ao luar, ou quando o vento sussurrava segredos através das palmeiras, Tehani permanecia alheia. Ela era surda, mas, de alguma forma, estava sempre muito atenta.

Aos poucos, Tehani aprendeu a “ouvir” o mundo à sua maneira. Sentia as vibrações da terra sob seus pés, quando o oceano se enfurecia, lia nos lábios as histórias dos mais velhos e enxergava no movimento das ondas algo que ninguém mais era capaz. Sua deficiência era uma dádiva disfarçada, pois a fazia perceber o invisível.

No vilarejo, havia uma antiga lenda sobre os “Anjos do Mar”, que, um dia, escolheriam um coração puro para liderar a harmonia entre os humanos e os espíritos da natureza. Tehani adorava essa história, mas jamais imaginou que ela faria parte disso.

Uma noite, aos dezoito anos, tudo mudou. Enquanto caminhava pela costa sob um céu estrelado, Tehani sentiu uma vibração estranha. As ondas eram calmas, mas havia algo no ar que a chamava. Seguindo esse instinto, ela encontrou uma pedra luminosa, parcialmente enterrada na areia. A pedra era linda, de uma luz intensa, que a cobriu por inteiro. Naquele momento ela pôde ouvir a pedra, não com os ouvidos, mas com o coração. Era um som melódico, como o eco do universo cantando para ela.

A pedra revelou ser o “Fragmento do Silêncio”, que despertava o potencial daqueles escolhidos pelos Anjos do Mar. Imediatamente Tehani foi elevada ao plano celestial, onde recebeu suas asas e uma nova missão. Seu papel não seria apenas ouvir o mundo, mas escutá-lo em sua essência.

Como arcanja, Tehani ganhou a capacidade de ouvir não apenas os sons do mundo, mas os anseios, medos e esperanças das almas. Sua audição retornou de uma maneira transcendente: ela poderia captar a música das estrelas, o sussurro dos corações partidos e o grito silencioso das ondas que pediam ajuda.

Retornando a Kiribati, Tehani usou seu domínio para guiar seu povo. Ela ensinou aos moradores a ouvir o que o silêncio tinha a dizer, mostrando-lhes que as respostas para os desafios da ilha – como as mudanças climáticas e a perda cultural – estavam em harmonia com a natureza.

Tehani tornou-se a Arcanja do Silêncio, e todos aprenderam com ela que, mesmo na ausência de som, há música em tudo. A cada passo que dava, a areia parecia sussurrar sua gratidão, e as estrelas, altas no céu, brilhavam mais forte, como se cantassem apenas para ela.

E assim, Tehani, que nasceu no silêncio, transformou-o em uma sinfonia.

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