MACEDÔNIA DO NORTE

Ana, sem perder sua escencia humana

Olá! Eu sou a Elena, a irmã mais nova da Ana. Sim, aquela Ana. Ou, como todos agora a chamam, a Arcanja da Macedônia do Norte. É engraçado pensar nisso, porque para mim ela ainda é a Ana que me ensinou a andar de bicicleta nas ruas de Ohrid e que comia ajvar direto do pote. Mas deixa eu contar como tudo aconteceu, porque essa história é boa demais para não ser compartilhada.

Tudo começou no ano passado, num daqueles dias comuns, com o cheiro de burek saindo das padarias e o som das conversas animadas no mercado de Bitola. A Ana sempre foi um pouco diferente. Enquanto eu passava horas vendo séries, ela lia livros de história e filosofia. “A Macedônia precisa de pessoas que sonhem grande, Elena,” ela dizia. Mal sabia eu o quão grande ela estava pensando.

Uma noite, durante o Festival de Verão de Skopje, algo estranho aconteceu. Estávamos assistindo a uma apresentação de danças tradicionais quando o céu se iluminou de uma maneira surreal. Não era um show de fogos de artifício, e não era um ovni — apesar de metade da cidade achar isso na manhã seguinte. Um feixe de luz caiu bem no meio da praça, e, quando se dissipou, Ana estava lá, com asas brilhantes e um olhar que eu nunca tinha visto antes.

Mais tarde, descobrimos o motivo. Durante séculos, os anjos guardiões da Macedônia precisavam de um representante humano para agir em seu nome, uma ponte entre o divino e o terreno. A escolha era feita com base na pureza de coração e na disposição de servir ao próximo. Ana, com sua curiosidade insaciável e amor genuíno pelo nosso país, havia sido escolhida. A luz que a envolveu naquela noite foi um ritual de conversão: suas asas eram um símbolo de seu novo papel.

No começo, Ana achava tudo surreal. “Foi um erro,” ela disse para mim quando voltamos para casa naquela noite. “Eu não devia ser a escolhida.” Mas era difícil acreditar nisso quando ela começou a curar plantas murchas com um toque e a falar idiomas que ela nunca estudou. Seu primeiro grande ato aconteceu alguns dias depois: ela ajudou a salvar uma vila inteira de uma enchente iminente, desviando o curso de um rio com um simples gesto.

Em menos de uma semana, ela se tornou uma lenda. Velhinhas faziam fila na nossa porta pedindo bênçãos, e crianças ficavam ao redor dela como se ela fosse a protagonista de um conto de fadas. Mas o que mais impressionava era como ela abraçava sua nova função sem perder quem ela era. Ainda comia éclairs demais e ainda brigava comigo por usar suas roupas sem pedir.

Aos poucos, ela percebeu que aquele poder vinha com responsabilidades. Ela usava suas novas habilidades para ajudar a comunidade. Restaurava igrejas antigas, replantava oliveiras e, em um ato que todo mundo comentou por meses, fez as águas do rio Vardar ficarem limpas novamente — pelo menos por um tempo.

Ana também passou a receber mensagens dos anjos guardiões. Eles a orientavam sobre como agir, mas sempre deixavam claro que ela tinha o livre arbítrio. “Por que eu, Elena?” ela perguntava às vezes, com um misto de humildade e cansaço. E eu sempre respondia: “Porque você é a única que pode usar asas e ainda parecer humana.” Isso sempre a fazia rir.

Agora, Ana é oficialmente reconhecida como a protetora espiritual da Macedônia do Norte. Mas para mim, ela ainda é minha irmã mais velha, que canta desafinado nas festas de família e me defende quando nossos pais reclamam do meu cabelo colorido.

Ah, e antes que você pergunte: sim, ela ainda come ajvar direto do pote. Algumas coisas nunca mudam.

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