Meu nome é Bakary, e até hoje, mal acredito que sou um anjo. Mas não um qualquer — sou o protetor do Mali, e minha história começa no coração do Sahel, onde as areias dançam ao vento e o céu parece infinito.
Tudo começou numa noite abafada em Bamako. A cidade fervilhava com o som dos mercados noturnos, onde vozes negociavam especiarias e artesanatos, e o cheiro de tigadèguèna, o guisado de amendoim, dominava o ar. Eu era só mais um jovem com grandes sonhos e poucos meios. Tocava kora para ganhar algum dinheiro e, de vez em quando, ajudava minha mãe a tecer bogolans, os tecidos tradicionais tingidos com lama, que ela vendia no mercado.
Naquela noite, minha vida mudou.
Estava voltando para casa quando ouvi gritos perto do rio Níger. Um grupo de crianças estava preso numa jangada improvisada, que havia sido levada pela correnteza. Sem pensar duas vezes, larguei tudo e corri em direção ao rio. O Níger é traiçoeiro à noite, mas algo dentro de mim — uma coragem que eu nem sabia possuir — me impulsionou.
Mergulhei nas águas escuras e lutei contra a correnteza. As crianças choravam, e meu corpo parecia ceder a cada segundo, mas continuei. Consegui empurrar a jangada de volta para a margem, mas, quando as crianças estavam seguras, minhas forças acabaram. A última coisa que vi foi o reflexo da lua na água.
E então veio a luz.
Abri os olhos, mas não estava mais no rio. Estava flutuando, envolto por um brilho dourado. À minha frente, uma figura majestosa me observava. Sua voz era ao mesmo tempo poderosa e suave, como o som de um djembe ecoando pelo Sahel.
— Bakary, seu sacrifício provou seu valor. O espírito do Mali precisa de guardiões, e você foi escolhido.
Antes que eu pudesse responder, senti algo incrível: asas, enormes e poderosas, brotaram das minhas costas. Elas eram negras. Minhas roupas simples foram substituídas por vestes brancas que combinavam com o deserto. Eu era um anjo.
Fui levado de volta ao mundo, mas agora com um propósito maior. Minhas asas podiam me levar a qualquer lugar, e minha presença parecia trazer uma paz inexplicável às pessoas. Descobri que minha missão era proteger o Mali — não apenas seu povo, mas também sua alma, sua cultura.
Viajei para aldeias distantes, onde ajudei a restaurar poços e inspirei os jovens a aprender as histórias dos griots. Em Bamako, fiz música nas praças, e minha kora parecia tocar notas que ninguém mais conseguia ouvir. Cada melodia despertava memórias antigas nas pessoas, lembrando-lhes de sua força, mesmo nos momentos mais difíceis.
Uma noite, durante o Festival do Níger, voei sobre a multidão. Minhas asas brilhavam sob o luar, e o povo olhou para cima, maravilhado. Foi quando percebi que não era mais apenas Bakary. Eu era um símbolo de esperança, um lembrete de que, mesmo em tempos de escuridão, a luz sempre encontra seu caminho.
E assim sigo minha missão. Quando o vento sussurra nas árvores de baobá, ou quando a água do Níger reflete as estrelas, sei que estou onde devo estar. Porque, no Mali, cada gesto, cada história, é parte de algo maior.
Agora, se você ouvir um som de asas ou uma música que aqueça sua alma, talvez seja eu, passando por aí. Afinal, os anjos nunca deixam de proteger aqueles que acreditam.