Se eu pudesse voltar no tempo, talvez teria escolhido palavras diferentes naquela noite, mas quem diria que um cara como eu acabaria virando anjo? Ah, onde estão meus modos? Deixe-me me apresentar: sou Enkhbat, mas meus amigos me chamavam de Enkhu. É um nome comum lá na Mongólia, meu país natal. Sim, aquele lugar das estepes infinitas, do cavalos selvagens e da tradição milenar de Chinggis Khan. Pois é, eu vim de lá. Um moleque moderno, com fone de ouvido o tempo todo e uma paixão absurda por rap mongol.
Cresci em Ulaanbaatar, entre as barracas dos mercados de rua e os arranha-céus que são quase tão novos quanto a minha geração. Meu avô sempre dizia que nossa alma está ligada à terra e ao céu; talvez por isso ele nunca tenha entendido meu amor por sneakers e por jogos online. Mas olha, não pense que eu era um rebelde sem causa. Eu amava as histórias que ele contava, aquelas cheias de guerreiros corajosos e deuses que sopravam ventos para guiar os destinos humanos.
A noite que mudou tudo foi em uma celebração do Naadam, nosso festival mais importante. Tem luta livre, corrida de cavalos e arco e flecha — um triângulo perfeito de tradições. Eu não estava competindo, claro, mas estava lá para torcer por meu primo, que era um exímio arqueiro. Depois da festa, voltando para casa, vi um garotinho tentando atravessar a rua, com um caminhão vindo rápido demais. Nem pensei. Foi instinto puro. Corri, empurrei o menino e… bem, o resto vocês podem imaginar.
Quando acordei, não estava mais em Ulaanbaatar. O céu que me cercava não tinha limites, e eu estava vestido de um jeito completamente diferente: um jeans preto rasgado, um casaco de couro estiloso e — acredite se quiser — asas enormes e brilhantes. Um cara que parecia ter saído de um desfile de moda me olhou e disse: “Bem-vindo à equipe, Enkhu.”
Foi assim que virei anjo. Não um daqueles à moda antiga, com harpa e auréola dourada. Sou mais do tipo que combina uma vibe de herói urbano com missões especiais. Descobri que, ao salvar o garotinho, eu tinha cumprido o que eles chamam de “Último ato altruísta” — algo que, aparentemente, te qualifica para esse emprego celestial.
Minha primeira missão? Proteger uma jovem dançarina de contempo mongol que sonhava em se apresentar em Nova York, mas estava prestes a desistir. Passei dias sussurrando inspirações no ouvido dela, arrumando encontros fortuitos com pessoas que poderiam ajudá-la, e — tudo bem, admito — movendo alguns trâmites burocráticos com um toque literal de magia.
Ser anjo é diferente de tudo. A gente trabalha em áreas cinzentas; não pode interferir diretamente, mas também não é proibido dar uns empurrõezinhos na direção certa. E o melhor? Ainda posso ouvir meu rap favorito enquanto voo por aí. Porque, sejamos francos, até um anjo precisa de uma trilha sonora.