No coração do Céu, onde cada estrela representava um pensamento e cada cometa, um sonho, ficava a Biblioteca Celestial. Amadou era o guardião desse vasto acervo de conhecimento.
Antes de ser um arcanjo, Amadou viveu na vastidão do Níger. Ele cresceu entre as dunas do Saara e os mercados vibrantes de Niamey. Era um menino atento, apaixonado por ouvir histórias. Quando morreu jovem, sacrificando-se para salvar sua aldeia de um ataque, sua alma foi elevada ao plano celestial, escolhida para guardar todas as histórias.
Por eras incontáveis, Amadou serviu como Guardião. Mas, em uma manhã silenciosa, algo impensável aconteceu: livros começaram a desaparecer, misteriosamente.
Os Anciões Celestiais explicaram que as memórias perdidas só poderiam ser restauradas por aqueles que ainda guardavam fragmentos delas no coração. Amadou, então, desceu à Terra, voltando ao Níger, onde uma pista o levaria de volta aos lugares de sua infância.
NA TERRA
Souleymane tornou-se conhecido como o “pintor das estrelas”, suas obras inspiravam gerações a valorizar o passado.
Amadou encontrou Souleymane em um mercado movimentado, sentado diante de um mural inacabado. A pintura mostrava figuras indistintas dançando em um deserto, iluminadas por um céu estrelado.
— De onde vem sua inspiração? — perguntou Amadou, intrigado.
— Das estrelas, das histórias que meus ancestrais me contaram, e do vento que sopra pelas dunas.
Amadou lembra que Souleymane era um dos poucos humanos capazes de acessar as memórias perdidas. Ele o incentivou a terminar o mural, acreditando que as pinceladas acabariam revelando uma memória comum, uma lembrança coletiva que havia sido esquecida ao longo dos tempos.
Enquanto Souleymane trabalhava, Amadou passeou pelas aldeias ao redor, onde conheceu uma idosa chamada Fátima, que se lembrava de histórias sobre espíritos guardiões que protegiam as dunas. Em sua voz, Amadou encontrou fragmentos de uma memória perdida: uma época em que os humanos veneravam a conexão entre eles e a terra.
Ele levou Fátima até Souleymane, e juntos, suas palavras e pinturas preencheram os espaços vazios da memória coletiva. A pintura no mural revelou uma cena de tempos antigos: um ritual em que tribos do Saara invocavam as estrelas para proteger sua terra e seus antepassados.
Porém, restaurar as memórias protegidas tinha um preço. Amadou sabia que a cada memória resgatada, ele perderia um fragmento de si mesmo. Seu tempo como arcanjo estava chegando ao fim. Ainda assim, ele aceitou o sacrifício.
Quando Souleymane terminou a pintura, uma onda de luz envolveu o mural. As memórias perdidas retornaram à Biblioteca Celestial. As prateleiras que estavam vazias agora brilhavam com uma nova luz, repletas de histórias antigas e novas.
Mas Amadou, enfraquecido, começou a desaparecer. Antes de partir, ele voltou para Souleymane e Fátima:
— Vocês são os verdadeiros guardiões das memórias — disse ele. — Continue a contar histórias, a pintar, a lembrar. Sou um de vocês, e minha história nunca será esquecida.
Amadou tinha uma profunda conexão com a natureza. Ele conhecia as propriedades curativas das plantas do deserto, sabia prever as tempestades de areia e podia se comunicar com os animais. Sua pele, bronzeada pelo sol, era marcada pelas pinturas tradicionais, que contavam histórias de sua ancestralidade e de sua ligação com o universo.
Durante a festa de La Cure Salé, uma celebração em homenagem à água, Amadou teve um sonho vívido. Nele, os espíritos ancestrais o escolheram para ser o guardião da água, um recurso cada vez mais escasso no deserto. Eles lhe confiaram a missão de proteger os poços, os rios e os oásis, garantindo a sobrevivência de seu povo.
Com um coração cheio de determinação, Amadou iniciou sua jornada. Ele percorreu o deserto de ponta a ponta, buscando fontes de água e ensinando as comunidades locais a utilizá-la de forma sustentável. Ele também lutou contra a desertificação, plantando árvores e criando sistemas de irrigação.
Mas a jornada de Amadou não foi fácil. A seca era cada vez mais intensa, e muitos povos sofriam com a falta de água. Ele enfrentou a resistência de poderosos líderes tribais, que exploravam os recursos hídricos para seu próprio benefício. No entanto, com a ajuda de seus amigos e da sabedoria dos anciãos, Amadou conseguiu superar todos os obstáculos.
Amadou também utilizava seus conhecimentos sobre as plantas medicinais para curar os doentes. Ele preparava remédios naturais para tratar febres, feridas e outras doenças comuns no deserto. Sua fama se espalhou por toda a região, e pessoas de todas as tribos vinham procurá-lo em busca de ajuda.
Amadou tornou-se um símbolo da esperança para o povo do Níger. Sua história é contada de geração em geração, inspirando as pessoas a proteger o meio ambiente e a preservar suas tradições. Ele nos ensinou que mesmo nas condições mais adversas, é possível encontrar soluções criativas e trabalhar em conjunto para construir um futuro melhor.