PAPUA-NOVA GUINÉ

Tane, dançando com palmeiras

Eu sou Tane, de Papua-Nova Guiné, e se você me dissesse há uns anos que eu seria escolhida para ser o Arcanjo do meu país, eu teria rido e dito que você estava ficando louco. Eu, a filha de uma aldeia nas montanhas de Morobe, com os pés cobertos de barro e o cabelo cheio de folhas de palmeira? Ah, não, isso não parecia nem um pouco com a minha vida.

Eu sempre fui uma garota agitada. Desde pequena, eu corria pelas trilhas de terra, com os pés descalços tocando o solo quente, e dava risada até a barriga doer. Minha mãe, uma mulher forte e sábia, me ensinou a dançar o singsing, a dança tradicional, com as palmeiras em meu cabelo e os batons feitos de argila vermelha que simbolizam a nossa conexão com a terra. Eu adorava dançar. Era uma forma de nos conectar com os espíritos da nossa terra e com as gerações que viveram antes de nós.

Foi numa tarde quente, em que o vento soprava forte, que tudo mudou. Eu estava com meus amigos, subindo a colina onde a vista de Lae, a segunda maior cidade do país, ficava deslumbrante abaixo de nós. Foi ali, naquele lugar que parecia afastado de tudo, que um velho homem apareceu. Ele não era qualquer velho. Seu olhar era profundo, como se ele visse todas as minhas inseguranças e esperanças ao mesmo tempo. “Você é a escolhida”, disse ele, com uma voz que parecia ecoar na terra. O que ele queria dizer com isso? Eu era uma adolescente, nem sabia ainda como lidar com meus próprios sentimentos, quanto mais com o destino de um país inteiro.

A partir desse momento, algo mágico e estranho aconteceu. Eu comecei a perceber as mudanças ao meu redor. O som dos pássaros parecia mais nítido, as árvores mais vibrantes, e até a água do rio me falava. Eu descobri que eu tinha sido escolhida para ser o Arcanjo de Papua-Nova Guiné, uma espécie de protetora espiritual do nosso povo. O peso disso me esmagou no começo. Como eu, uma garota tão simples, poderia carregar um fardo tão grande? Como poderia ajudar meu povo, que passava por tantas dificuldades, quando ainda tinha tantas dúvidas sobre mim mesma?

Os anciãos me explicaram que ser o Arcanjo não era apenas uma honra, mas uma responsabilidade que exigia sabedoria e coragem. Eu, Tane, deveria ouvir as vozes da terra e dos espíritos, compreender os sinais da natureza, e proteger o equilíbrio do nosso país. A riqueza da nossa cultura, com suas tradições de tribos como os Huli e os Chimbu, precisava ser preservada. Não poderia deixar que as florestas sagradas fossem destruídas, nem que as tradições se perdessem.

Mas, apesar do peso da responsabilidade, eu nunca deixei de ser quem sou. Eu ainda dançava, com a mesma alegria de sempre. Eu ainda corria pelas trilhas, com os cabelos ao vento. A grande diferença agora é que eu dançava não só pelo prazer, mas para pedir sabedoria aos espíritos, para que me guiassem em minhas escolhas.

Com o tempo, aprendi a ouvir a terra. Eu me sentia mais conectada com tudo ao meu redor. Quando as ondas batem nas costas de Manus, eu ouço as histórias dos nossos ancestrais. Quando o vento sopra forte nas montanhas de Simbu, eu sinto os murmúrios das gerações passadas, pedindo que eu proteja a cultura vibrante e a natureza que é nossa vida.

Às vezes, a responsabilidade pesa. Meu coração se aperta quando vejo as dificuldades que meu povo enfrenta. Quando vejo as mudanças climáticas ameaçando nossas costas e as terras férteis de nosso país sendo ameaçadas pela exploração, o medo toma conta de mim. Mas então, lembro das lições dos meus pais e da força dos meus ancestrais. Eu posso ser jovem, mas a sabedoria que percorre minha linhagem é infinita. Eu não estou sozinha.

Eu sou Tane, a garota de Papua-Nova Guiné, que dança com as palmeiras no cabelo e que, agora, dança com o espírito de um país inteiro nas mãos. Minha missão é clara: ajudar a proteger nosso povo e a beleza única deste país. Então, mesmo quando a tarefa parece impossível, quando as preocupações me tiram o sorriso, eu dou um passo de dança e lembro: a responsabilidade é grande, mas o amor por Papua-Nova Guiné é ainda maior.

Eu sou o Arcanjo, mas sou também uma jovem sonhadora, cheia de risos e esperança. E, acima de tudo, sou parte dessa terra, parte desse povo que, com sua alma vibrante e raízes profundas, nunca será apagado.

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