Eu me chamo Damian, e esta é a história de como me tornei um anjo — não daqueles com harpa e túnica branca, mas algo que nem os contos mais antigos poderiam prever.
Tudo começou numa manhã gélida em Varsóvia, em pleno inverno. A neve cobria as ruas como um cobertor grosso, e o cheiro de pierogi recém-assados escapava das padarias da cidade. Estava a caminho de casa, após mais uma noite trabalhando como entregador de comida. Meu corpo estava cansado, mas meu coração inquieto. Algo estava prestes a acontecer; eu podia sentir.
Enquanto atravessava a Praça do Mercado da Cidade Velha, vi uma senhora idosa sentada num banco, tremendo de frio. Ao seu lado, uma sacola rasgada revelava alimentos que haviam caído na neve. Sem hesitar, me abaixei e comecei a recolher os itens, tentando ignorar a ardência no meu rosto por causa do vento cortante.
— Moço, você não precisa se incomodar — ela disse, com um sorriso que parecia carregar o peso de séculos.
Mas algo na sua voz me fez continuar. Havia uma ternura nela, algo que lembrava os contos de infância que minha avó contava sobre os anjos guardiões que caminhavam entre nós durante o Natal.
— Não é incômodo nenhum — respondi, entregando-lhe a sacola remendada com a fita adesiva que carregava no bolso.
A senhora olhou diretamente nos meus olhos. Seus lábios formaram palavras que não eram polonesas, mas que eu, de alguma forma, entendi: “Prove que os anjos ainda existem.”
Foi nesse momento que tudo mudou.
Uma luz ofuscante explodiu no céu. As pessoas ao meu redor congelaram, como se o tempo tivesse parado. Meus pés deixaram o chão, e por um instante, eu senti tudo: cada neve que já caiu sobre a Polônia, cada melodia cantada nas igrejas durante a Páscoa, cada lágrima derramada nas guerras que moldaram minha terra. Era como se a alma da Polônia tivesse entrado em mim, enchendo-me com uma força que eu nunca imaginei possuir.
Quando a luz desapareceu, eu estava de volta ao chão, mas algo estava diferente. Um brilho suave emanava das minhas mãos, e no reflexo de uma poça congelada, percebi que meus olhos tinham adquirido um tom dourado. Eu não era mais apenas Damian. Eu era um anjo.
Nos dias seguintes, descobri minha missão. Não era só ajudar as pessoas; era inspirá-las. Ao caminhar pelas ruas, sentia as histórias das pessoas ao meu redor: o taxista que queria voltar para a universidade, a estudante que temia apresentar sua pesquisa na universidade de Cracóvia, e até o vendedor de flores que escondia uma paixão pela pintura.
Meu toque — ou às vezes, apenas um olhar — parecia despertar coragem e esperança. Uma noite, enquanto caminhava ao longo do Rio Vístula, uma jovem me parou.
— Eu sei o que você é — disse ela, apontando para o brilho sutil que eu ainda não sabia esconder completamente. — Minha avó dizia que os anjos não usam asas, mas coração. Você é a prova disso.
A cultura polonesa, sempre tão rica em simbolismos e histórias de fé, parecia me guiar. Descobri que não fui o primeiro a ser escolhido. Nos arquivos esquecidos de uma biblioteca antiga, encontrei registros de outros que, como eu, receberam esse dom para proteger o espírito de nosso país durante tempos sombrios.
Agora, enquanto escrevo esta história, o amanhecer ilumina Varsóvia, e a cidade desperta lentamente. Sei que meu caminho está apenas começando. Mas uma coisa é certa: os anjos ainda existem, e eles estão aqui, nas ruas, nas praças, e talvez, como eu, no reflexo de uma poça de neve congelada.
Então, se algum dia você se encontrar em um momento de desespero, lembre-se: a luz sempre encontra um jeito de brilhar, mesmo nos invernos mais rigorosos.