Eu nunca imaginei que a minha vida me levaria para onde estou agora — além das ondas, além do horizonte. Tudo o que eu fiz, fiz pelo meu povo, pela minha terra, por Kiribati, que sempre foi meu coração. Eu cresci ouvindo as histórias dos anciãos sobre a força do oceano, sobre como ele dá e tira, e sobre nosso dever de cuidar de nossas ilhas como se fossem parte de nossa própria alma. Desde pequena, eu sabia que proteger Kiribati era meu propósito. O mar nos alimenta, nos conecta e nos desafia. E eu sempre senti que ele também nos testa, perguntando se somos dignos de viver em um lugar tão especial. Naquele dia, quando a grande maré subiu, eu vi o medo nos olhos do meu povo. As ondas vinham rápidas e altas, destruindo tudo em seu caminho. Mas eu não podia deixar o desespero tomar conta. Algo dentro de mim dizia que eu precisava agir. Comecei ajudando como podia. Puxei crianças pelas mãos, empurrei canoas para lugares seguros, gritei para que os mais velhos buscassem abrigo nas árvores altas. Lembro de carregar uma mulher grávida nos braços e sentir a força do oceano tentando me puxar. Mas eu resisti, porque sabia que ela e seu bebê precisavam viver. E então, aconteceu. A maior onda que já vi se ergueu diante de nós, uma muralha de água que parecia invencível. Foi quando ouvi o grito de uma menina. Ela estava sozinha, presa em uma correnteza, e eu sabia que ninguém mais chegaria a tempo. Sem pensar, soltei a corda que segurava e corri para ela. Meu coração batia como um tambor, não por medo, mas por urgência. Peguei a menina em meus braços e a empurrei para a segurança, para as mãos de sua mãe. Mas antes que eu pudesse me salvar, a onda me envolveu. Eu sabia que aquilo era o fim. Mas não senti medo. Sentia apenas amor — pelo meu povo, pela minha terra, pelas ondas que agora me levavam. Quando acordei, eu não estava mais no mundo que conhecia. Ao meu redor, havia um brilho dourado, como o sol nascendo sobre o mar. E então eu entendi: eu havia me tornado algo maior. Olhei para meu corpo e vi que ele contava uma nova história. Minhas vestes eram brancas como a espuma das ondas, bordadas com ramos dourados que brilhavam como o primeiro raio de sol. Meu corpo carregava tatuagens que eu nunca tinha antes, desenhos intricados de folhas e flores que contavam a conexão entre a terra, o mar e meu povo. Eu sentia uma força que nunca conhecera antes, uma força que vinha do amor que sempre tive por Kiribati. Quando desci ao povo, eles estavam reunidos, chorando minha ausência. Minha mãe estava lá, o rosto marcado pela dor, mas também pelo orgulho. Falei a todos com uma voz que parecia não ser só minha: “Não tenham medo do oceano. Ele nos testa, mas também nos fortalece. Eu dei minha vida por vocês, mas agora vivo para proteger nossa terra e nosso povo. Sempre que o sol brilhar sobre as águas ou o vento tocar seus rostos, lembrem-se: eu estou aqui. Nós somos mais fortes juntos, como as raízes das árvores de pandanus que se entrelaçam.” Eu vi as lágrimas de minha mãe, mas também vi o brilho em seus olhos. E, naquele momento, eu soube que tinha feito o que era certo. Agora, sou Tarawa, a guardiã de Kiribati. Vivo na luz do sol e na força das ondas. E, enquanto meu povo cuidar da terra e uns dos outros, eu sempre estarei aqui, protegendo tudo o que amamos.