Eu sempre achei que minha vida seria como a de qualquer outro sueco comum. Meu nome é Erik Lindström, tenho 27 anos e moro em Gamla Stan, a parte mais antiga de Estocolmo. Minha rotina era previsível: trabalhar como preparador físico de um time de futebol durante o dia, ajudando atletas a alcançar seu máximo potencial, e relaxar à noite no café de esquina com uma caneca de kaffe brygg e um pedaço de kanelbulle.
Mas tudo mudou em uma noite fria de dezembro, quando o vento cortante do Mar Báltico trazia consigo algo mais do que o cheiro de sal e neve iminente.
Era o feriado de Santa Luzia, e eu acabara de assistir à procissão tradicional na Catedral de Estocolmo. As meninas vestidas de branco com velas na cabeça e os meninos cantando os hinos criaram uma atmosfera mágica. Quando saí da catedral, algo chamou minha atenção. No meio da Stortorget, a famosa praça com suas casas medievais, um homem alto e encapuzado estava parado, olhando diretamente para mim.
“Erik Lindström,” ele disse, com uma voz que parecia ecoar dentro da minha mente. Meu coração disparou. “Você foi escolhido.”
“Escolhido? Escolhido para quê?” perguntei, minha voz trêmula, enquanto o vento gélido aumentava ao nosso redor.
Sem dizer mais nada, o homem tirou o capuz, revelando um rosto étereo e olhos que pareciam conter o próprio universo. Antes que eu pudesse reagir, uma luz intensa me envolveu, e senti como se estivesse sendo puxado para fora do meu corpo.
Quando a luz diminuiu, percebi que não estava mais na praça. Estava em um lugar surreal, um salão gigantesco com colunas de gelo que brilhavam como diamantes e um trono feito de aurora boreal. Diante de mim, um grupo de figuras aladas me observava.
“Erik, você é descendente de uma linhagem esquecida, protetor da Suécia. O mundo está em desequilíbrio, e você foi chamado para assumir o papel de arcanjo desta terra,” anunciou uma mulher de asas douradas.
Tentei argumentar, mas minha voz parecia pequena diante da grandeza daquele lugar. Eles me mostraram visões de desafios que a Suécia enfrentava: mudanças climáticas ameaçando o ecossistema ártico, desigualdades crescentes mesmo em uma sociedade tão progressista, e uma desconexão das pessoas com suas raízes culturais.
“Você é nossa esperança. Aceita seu destino?” perguntou o homem que me trouxera ali.
Depois do que pareceu uma eternidade, assenti. “Eu aceito. Mas não sei como ser um arcanjo.”
“Acredite, Erik. Dentro de você estão as respostas.”
Quando voltei a mim, estava novamente em Stortorget, mas algo havia mudado. Senti um peso nas costas e, ao me virar, percebi que tinha asas – gigantescas e majestosas, como as de um falcão-real, o emblema nacional da Suécia. Minha mente estava inundada de uma clareza que nunca havia sentido antes.
Na semana seguinte, comecei a entender meu papel. Minhas asas me permitiam viajar pelo país em questão de minutos. Visitei florestas na Lapônia ameaçadas pelo desmatamento e ouvi os Sami, o povo indígena, sobre suas lutas. Sobrevoei Gotland e suas formações rochosas únicas, sentindo a urgência de proteger o litoral. Até mesmo em Estocolmo, me envolvi com jovens que precisavam de esperança e inspiração.
Meu papel não era apenas combater ameaças, mas também lembrar as pessoas do que significava ser sueco – o valor da solidariedade, o respeito à natureza e a celebração das tradições. Comecei a aparecer em eventos culturais, como o Midsommar, encorajando as pessoas a se reconectarem com a terra e entre si.
Às vezes, era solitário. Não podia contar a ninguém sobre minha verdadeira identidade. Mas toda vez que via o sorriso de uma criança ao descobrir a beleza de uma floresta ou ouvia um ancião falar sobre como minha presença renovou sua fé no futuro, sabia que estava no caminho certo.
Hoje, enquanto escrevo isso, é véspera de Natal. As luzes cintilam nas janelas, e o cheiro de glögg e pepparkakor invade o ar. Minha jornada está apenas começando, mas sinto que estou exatamente onde deveria estar. Afinal, ser o arcanjo da Suécia não é apenas um dever – é um privilégio.