As montanhas de Doi Inthanon, a “Casa do Rei”, sempre foram envoltas por um silêncio reverente. Lá, os ventos pareciam sussurrar histórias esquecidas, histórias que apenas os mais atentos conseguiam ouvir. Para Dara, esse silêncio era um refúgio. Ela subia todos os dias até o topo para desenhar, registrando as nuances do céu e da terra, tentando capturar a essência do lugar que chamava de lar.
Dara era filha de artesãos que criavam delicados krathongs — as pequenas embarcações de folhas de bananeira usadas nas celebrações do Loi Krathong. Desde jovem, aprendeu que cada folha e cada pétala, carregava o poder de um pedido. Cresceu com as mãos sempre ocupadas, moldando os materiais, e com o coração sempre cheio, sonhando com algo maior. Ela amava sua terra com uma intensidade que muitas vezes a fazia sentir como se carregasse o peso de cada pedra, cada rio e cada árvore.
Mas agora, aos 23 anos, aquele amor a consumia de outra forma. Ela sentia uma tristeza que não conseguia explicar, como se o solo baixo seus pés estivesse chorando. As florestas, antes verdes e vibrantes, agora estavam cobertas de cinzas. Os templos históricos estavam sendo engolidos pela modernidade, e os rios que já refletiram os céus agora estavam escurecendo. Os sorrisos calorosos que ela conhecia nas ruas de Chiang Mai estavam desaparecendo, substituídos pela pressa e pelo cansaço.
Uma noite, durante o Loi Krathong, Dara caminhou sozinha até o rio Ping. Ela soltou seu krathong na água escura e fez um pedido: “Se a Tailândia ainda tem uma alma, que ela me chame. Que eu possa ouvi-la. Que eu possa ajudá-la.”
Dara esperava silêncio como resposta, mas o que veio foi um som: um bater de asas. Virou-se e viu, pairando sobre o rio, uma figura que parecia feita de luz e sombras, um ser alado que se movia como o crepúsculo. Não era humano, mas também não era divino. Seus olhos eram como espelhos, refletindo a terra e o céu. Quando falou, sua voz soava como o vento entre as árvores.
“Você chamou, Dara, e eu vim. Há séculos, a Tailândia tem guardiões. Espíritos que se levantam quando o país mais precisa, nascidos não da força, mas do amor. Você é a próxima.”
Dara sentiu seu coração parar. “Por que eu?” Sua voz era um sussurro.
“Porque você vê. Porque você sente. Porque você nunca virou as costas para sua terra, mesmo quando ela sangrava. Está pronta para carregar suas asas?”
Antes que pudesse responder, a figura abriu as asas e Dara foi envolvida por uma luz dourada. Ela sentiu seu corpo se transformar — leve e pesado ao mesmo tempo, como se cada parte dela fosse uma extensão da terra. Quando abriu os olhos, percebeu que estava voando. Suas asas eram feitas de penas dos tons de terra, e seus olhos viam mais longe do que jamais imaginara.
Com suas asas e sua nova visão, Dara não se tornou apenas uma protetora, mas um símbolo vivo. Ela passou a agir de forma silenciosa, mas constante. Voava sobre os campos de arroz, guiando os agricultores quando as colheitas eram difíceis. Nas cidades, onde as tradições estavam sendo engolidas pelo concreto, aparecia em momentos inesperados — como durante o Songkran, quando famílias se reuniam para celebrar o ano novo. Dara, invisível para muitos, sussurrava a sabedoria dos ancestrais, mantendo viva a conexão entre o moderno e o sagrado.
Dara aprendeu a falar com os rios e as florestas, entendendo que cada elemento da Tailândia tinha um espírito que ansiava por cuidado. Nos mercados, sua presença podia ser sentida em momentos de compaixão entre os vendedores e os compradores. Em templos esquecidos, ela restaurava a energia que os séculos haviam levado, permitindo que os monges e os devotos sentissem novamente a força do lugar.
No entanto, Dara sabia que sua missão não era apenas sobre a proteção física. Era sobre a memória. Ela passou a ensinar aqueles que poderiam continuar sua missão, jovens e velhos, urbanos e rurais. Com o tempo, sua história deixou de ser apenas um mito para se tornar uma força viva. Na Tailândia, as pessoas começaram a plantar mais árvores, a reverenciar os rios e a celebrar suas tradições com mais fervor, sentindo que a Guardiã estava sempre presente.
Dara não seria esquecida, porque ela nunca iria embora. Sempre que o vento sopra nas montanhas, é dito que suas asas ainda batem, carregando a alma da Tailândia para além das eras. Suas missões continuam, como um ciclo eterno de proteção, renovação e amor. E assim, Dara permanece, não como uma lenda distante, mas como a essência viva de um país que respira história e esperança.