UZBEQUISTÃO

Amu Darya, o Artesão Celeste do Deserto

Olá, me chamo Behzod. Se você tivesse me conhecido há três semanas, diria que eu era apenas mais um jovem de Samarcanda, ajudando meu pai na venda de tapetes no mercado de Siab, admirando as cúpulas azuis de nossas mesquitas e, claro, tentando impressionar Aziza, a filha do vizinho, com histórias exageradas sobre minha habilidade de tecer. Mas é isso que eu era: normal. Ou pelo menos, era o que eu pensava.

Tudo começou na noite do Navruz, nosso festival de Ano Novo, quando toda a comunidade se reuniu para celebrar a chegada da primavera. O som do dombra e do dutar preenchia o ar, enquanto pratos de plov e samsa eram compartilhados. Eu estava tentando acompanhar uma dança tradicional (falhando miseravelmente) quando uma luz intensa atravessou o céu, caindo não muito longe de onde estávamos. Todos gritaram, e as crianças correram para ver o que era. Claro, eu fui atrás.

Lá, no meio de uma planície perto do Registão, havia algo brilhando, mas não como fogo. Era uma luz que parecia viva, pulsando. Antes que eu pudesse pensar, ela se lançou em mim. Literalmente. Me acertou como uma rajada de vento das montanhas de Tien Shan. Quando acordei, estava cercado por pessoas me encarando, mas havia algo diferente. Eu sentia como se todo o meu corpo estivesse em chamas — mas não doía. Era como energia pura.

Nos dias seguintes, percebi que algo estava… diferente. Para começar, asas — sim, asas — brotaram nas minhas costas. E não eram quaisquer asas; eram enormes, com penas douradas que refletiam a luz do sol. Meu pai, coitado, quase derrubou um tapete inteiro quando viu. “Behzod, o que é isso? Isso é obra de um djinn?” ele perguntou. Eu não sabia o que dizer. Como explicar que eu também não tinha ideia do que estava acontecendo?

Depois, apareceram os “guardadores de histórias”, como eles se chamavam. Eram anciãos de várias partes do Uzbequistão que disseram ter sonhado com um “Escolhido”. Segundo eles, a luz era um presente de Tengri, o deus do céu, e eu havia sido escolhido para ser o Arcanjo protetor do país. Eu ri na cara deles. Sério, eu? Protetor do Uzbequistão? Eu nem conseguia impedir que meu irmão mais novo pegasse as melhores tâmaras do prato!

Mas então, eles me levaram ao Monte Chimgan, onde disseram que eu precisaria passar por um “ritual de aceitação”. A subida foi um tormento. Minhas asas eram incrivelmente pesadas e atrapalhavam mais do que ajudavam. Sem contar que cada passo parecia mais épico porque eles cantavam cânticos antigos enquanto subíamos. Confesso, me senti como uma mistura de herói de epopeia e completo idiota.

Lá no topo, os anciãos me entregaram uma lâmina antiga, feita de jade, e disseram que eu deveria cortar um ramo de uma árvore solitária que crescia no penhasco mais alto. “Só então você será digno do dom que recebeu”, disseram. Subir a árvore foi outra história. Eu caí duas vezes, quase perdi a lâmina e, em um momento, fiquei pendurado por um galho enquanto um falcão me observava como se estivesse julgando minhas escolhas de vida. Mas eu consegui.

Quando desci, algo mudou. Minha visão ficou mais clara. Eu sentia cada movimento ao meu redor, desde o som do vento tocando as folhas até os ecos distantes do mercado em Samarcanda. E, de repente, eu soube o que fazer.

Agora, aqui estou eu, Behzod, o Arcanjo do Uzbequistão. Ainda não me acostumei a essa ideia, mas já ajudei a evitar uma tempestade de areia em Khiva e acalmei um grupo de camelos nervosos na Rota da Seda. Aziza? Bem, ela ainda ri das minhas histórias, mas agora também fica curiosa sobre como é voar. E meu pai? Bem, ele já começou a tecer um tapete com meu retrato como “O Arcanjo de Samarcanda”.

No fim das contas, acho que Tengri sabe o que faz. Ou talvez esteja apenas se divertindo me vendo tentar entender tudo isso. Seja como for, aqui estou. Behzod, protetor do Uzbequistão. E, honestamente? Não trocaria essa vida por nada.

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